Textos

Flagrantes do paraíso
(uma leitura do romance A Selva, de Ferreira de Castro
)

Carlos Antônio M. Guedelha
Mestre em Sociedade e Cultura na amazônia - Estudos Literários (UFAM)
Doutorando em Linguística (UFSC)


Resumo

Aborda-se neste artigo o encaixe do romance A Selva, de Ferreira de Castro, na tendência neo-realista da prosa portuguesa, cultivada nos anos 40 do século XX, e sua ligação com o chamado “romance de 30” do Brasil. Numa leitura acurada da obra, mapeiam-se os principais flagrantes do seringais da Amazônia metaforizados pelo autor.

Palavras-chave: Romance, neorrealismo, Amazônia, seringais, seringueiros.


1. Introdução

     Ferreira de Castro é geralmente apontado como um dos expoentes, na literatura portuguesa, de uma tendência surgida nos anos 40, denominada de “Neo-Realismo”. Trata-se de uma escrita pós-modernista, que floresceu nas proximidades da Segunda Guerra Mundial e tem no romance a sua expressão mais proeminente. Agrupava autores que rejeitavam a arte presencista (de teor introspectivo), revelando uma nítida influência norte-americana e, principalmente, brasileira, pois os romancistas de 30, escrevendo sobre o Nordeste brasileiro e seus problemas, inspiraram os portugueses a propor, em contraposição ao psicologismo em voga em Portugal, uma literatura engajada, de coloração social, objetivando denunciar as injustiças sociais e a exploração do homem pelo homem. Dessa forma, a luta de classes vai preencher as páginas dos romances, e as personagens passam a representar os embates entre patrões e empregados, trabalhadores e senhores de terra. Ao comentar sobre o Neo-Realismo português, Massaud Moisés (2001, p. 273) assegura que foi "um movimento em que se restaurou a idéia de literatura social, de ação reformadora consciente, literatura engagée, a serviço da redenção do homem do campo ou da cidade, injustiçado e humilhado por estruturas sociais envelhecidas: os neo-realistas punham o problema da luta de classes, na equação senhor x escravo, que se desgastou à custa de tanto ser repetida, e que não raro atrofiou a estrita carga literária de certas obras, transformando-as em panfletos".
     Entre os romances publicados por Ferreira da Castro, dentro dessa linha, encontram-se dois ambientados na Amazônia: Os Emigrantes (1928) e A Selva (1930). Ambos são resultado da vivência do autor em seringais da Amazônia, para onde veio aos 12 anos de idade, em 1910. As duas obras deram ao seu autor imediato prestígio que, com o tempo, aumentou cada vez mais, embora os romances posteriores não tenham conseguido manter a qualidade dos dois supracitados, considerados os melhores de sua lavra.
       Massaud Moisés (2001, p. 274) mostra que, na construção de suas obras, Ferreira de Castro procura como personagens "os que sofrem as injustiças sociais, todos quantos, esmagados pelas condições adversas, clamam por atenção menos fria, o que significa apelo constante ao calor humano. Simples, humildes e desgraçados sempre, quer sejam do Amazonas, do interior de São Paulo, quer das zonas frias da Serra da Estrela, une-os a mesma infelicidade de serem párias sociais, irmãos apesar de toda diferença temporal ou geográfica. Romance social, documentário ou reportagem, sua obra contém um testemunho contemporâneo das classes inferiores em luta dentro da moderna organização social.
          Em sua vivência na Amazônia (Pará e Amazonas), o escritor testemunhou cenas e flagrantes que mais tarde seriam recriados pela pena vigorosa do artista, transformando-se no romance A Selva, considerado por muitos a sua obra-prima. O texto que ora escrevemos objetiva propor uma leitura da referida obra, enfocando os flagrantes dos seringais amazônicos presentes nas imagens que o escritor criou.


2. Gaiola não é metáfora (de Fortaleza a Belém)

          A ação do romance inicia-se em Belém do Pará, com a chegada de um navio carregado de nordestinos agenciados no Ceará pelo mulato Balbino, funcionário do seringal “Paraíso”, localizado nas proximidades da cidade de Humaitá, no rio Madeira. Para lá eles seriam levados.
           Aos poucos o leitor vai tomando conhecimento dos fatos antecedentes: Balbino fora comissionado por Juca Tristão, o proprietário do “Paraíso”, a agenciar sertanejos no Nordeste para o trabalho na extração do látex. Aproveitando-se da situação de extrema miséria dos sertanejos, premidos pela fome e fustigados pela seca inclemente, Balbino, como bom agenciador, recrutou-os mediante a propaganda enganosa de que, trabalhando nos seringais da Amazônia, em pouco tempo ficariam ricos, adquirindo expressiva fortuna. Assim, os sertanejos iniciam sua faina de retirantes rumo ao “Paraíso”, com escalas em Belém e Manaus, levando na escassa bagagem muitos sonhos e ilusões (uma miragem).
          Ao adentrarem no “gaiola” (nome dado aos navios que faziam esse tipo de transporte) que os conduziria naquela viagem, logo percebem que haviam caído numa armadilha: o minguado dinheiro que o agenciador deixara para a alimentação da família do agenciado, o alto preço da passagem e a alimentação que este consumia ao longo da longa viagem de navio eram os primeiros elos de uma corrente que só tenderia a crescer, prendendo-o e escravizando-o. A descoberta do engodo faz com que os retirantes arquitetem projetos de fuga ao chegarem a Belém. E fugir é tudo que desejam, a fim de se libertarem da armadilha. Ciente disso, Balbino reforça a vigilância e pune severamente quem é apanhado em intenção de fuga. Em Belém, Balbino encurrala aquele “rebanho” humano numa hospedaria imunda, enquanto vai ultimando os preparativos para a continuação da viagem. Mesmo assim, três daqueles homens conseguiram fugir. E é assim, contabilizando a perda de três homens, que o narrador apresenta Balbino ao leitor.
          Nesse ínterim, entra em cena o protagonista da narrativa. Trata-se de Alberto, um jovem português de 26 anos, estudante do 4º ano de Direito, que se exilara em Belém para fugir da perseguição policial do seu país, por ter participado da Revolta de Monsanto e por defender idéias monarquistas na recém fundada República. Alberto morava com o tio, senhor Macedo, também português, dono de um sórdido hotel para seringueiros na capital paraense. Sendo um homem extremamente ganancioso, Macedo encarava o sobrinho desempregado como um estorvo, um peso a suportar, um fator gerador de despesas desnecessárias. Com a iminência da partida do navio rumo ao rio Madeira, Macedo aproveitou o ensejo para se livrar de vez do sobrinho incômodo: propôs ao Balbino que o levasse no lugar de um dos fugitivos. Como mandava a praxe daquele comércio singular, Alberto teve que assumir a dívida do cearense que fugira, ingressando, em seu lugar, no gaiola que levaria os “brabos” ao seringal.

3. Prancha dentro! (o “curral flutuante” deixa Belém)

          A expressão “prancha dentro!” é bem conhecida na navegação amazônica. Trata-se de uma ordem, dada após o encerramento dos portões e os silvos de despedida emitidos pela sereia do navio, para que a prancha (espécie de ponte improvisada para o acesso a bordo) seja recolhida, soltem-se as amarras, realizem-se as manobras de atracação e a viagem tenha o seu início.

               “Prancha dentro!” (p. 40)

          Dada essa ordem dada pelo comandante Patativa, o navio Justo Chermont, “flechado por acenos e adeuses dos que ficam, foi-se distanciando na indiferença da noite tropical”. (p. 40) Verdadeiro “curral flutuante” (p. 41), levava a bordo uma carga humana à qual o narrador se refere insistentemente através de coletivos desabonadores, como “récua”, “rebanho”, “leva”, “caterva”, “malta”, etc. Essa seleção vocabular contribui para expressar as condições subumanas a que os nordestinos eram submetidos, tratados mais como bichos que como gente.
          Diferentemente da 1ª classe (pavimento superior do navio), onde viajava a granfinagem com todo o luxo possível e todos os desfrutes, a 3ª classe – para onde haviam sido atirados os miseráveis retirantes – era um ambiente de total promiscuidade e imundície. Ao descrever essa situação, o narrador freqüentemente lança mão da ironia, como se percebe no seguinte trecho: “na terceira, a caterva humana apertava-se e tripulante que quisesse romper o grupo tinha de eleger os cotovelos como argumento”. (p. 40) Era um convés “viscoso e nauseabundo”, nojento, (p. 47) e para descrevê-lo com as fortes tintas naturalistas, o narrador serve-se das impressões de Alberto, que, pela sua diferente educação e pelo diferente meio de onde viera, estranha muito mais que os outros passageiros aquele ambiente nauseante e asqueroso. Tanto que seus pensamentos evocam os navios negreiros que transportavam escravos da África para o Brasil, (p. 69) prática que agora se repetia em outras circunstâncias.
          E nesse mesmo tom, sem qualquer variação, o Justo Chermont passa por Parintins, Itacoatiara, cruza o “encontro das águas”, (p. 53) aporta em Manaus e retoma viagem pelo rio Madeira.

4. Prancha fora! (entrando no “Paraíso”)
         
          “Prancha fora!” é a ordem, dada após o cabo ser atirado a terra para a atracação, para que se operacionalize a descida dos passageiros.
          Entre o “prancha dentro!” e o “prancha fora!” (p. 68) está todo o lapso de viagem de Belém ao “Paraíso”, “uma subida lenta, de 15 dias bem puxados”. (p. 49)
         A aparição do navio no porto do “Paraíso” é sempre um motivo para aglomeração de pessoas vindas de todas as direções, ansiosas por novidades da cidade, pela cotação da borracha, ou simplesmente pela necessidade de presenciar um acontecimento diferente naquele mar de rotina e monotonia. À chegada do Justo Chermont, muitos seringueiros acorrem ao porto, curiosos por ver os novos “brabos” que chegavam. Nutriam por estes, inicialmente, um ódio visceral mas inconsciente, pelo fato de ainda acreditarem naquilo que os velhos seringueiros já haviam deixado de crer havia muito tempo. Em decorrência disso, recepcionavam os tímidos conterrâneos que chegavam com chocarrices, chacotas e até insultos verbais. Mas com o passar do tempo, ao mesmo tempo em que o “brabos” vão sendo “amansados” no trato com as seringueiras, o sentimento de rejeição por parte dos veteranos vai se dissipando e todos vão, aos poucos, irmanando-se naquela prisão a céu aberto.
          O “Paraíso” é um universo tão rico em flagrantes que o narrador, heterodiegético, não se sente capaz de, sozinho, dar conta de montar o painel evocativo que deseja transmitir ao leitor: é um narrador onisciente, mas não onipotente. Assim sendo, de forma bastante produtiva, escala duas personagens para auxiliá-lo no mister de descrever os fenômenos e narrar os eventos alusivos ao dia-a-dia do seringal. E oferece-lhes as armas adequadas: a Firmino dá o discurso direto como recurso de esclarecimento e reconhecimento do espaço e das relações sociais; a Alberto dá o discurso indireto livre como instrumento de contestação, indignação e reflexão. É através dessas três vozes narrativas principais (o narrador em 3ª pessoa, Firmino e Alberto) que o leitor tem a oportunidade de entrar no “Paraíso” e desvendar-lhe os matizes mais recônditos.

          Entre os flagrantes explorados pelas vozes narrativas, destacamos:

          a) A selva como antagonista do homem

          Imagem comum na literatura da e sobre a Amazônia, no romance de Ferreira de Castro a selva configura-se como um contra-espaço que, personificado, encara o homem como intruso, invasor, agressor, e, numa expressão de autodefesa ou vingança, faz de tudo para aniquilá-lo, estrangulá-lo. “Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa”. (p. 77) Somada ao fato do acirramento da exploração capitalista, a selva aprisiona o seringueiro em sua prisão de paredes verdes. Daí o fato de o narrador utilizar insistentemente termos que remetem à idéia prisão, como “muralha verde” (p. 67, 94, 139), “masmorra verde” (p. 112), “cárcere verde” (p.136), etc.
            Alberto observava que "a selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonado a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados". (p.84)
      Há inúmeras outras passagens que exemplificam esse sentimento de total enclausuramento na floresta, como no techo que segue: “O resto era a selva, com a sua vida sombria, ali pertinho, muito pertinho, fechando-se num anel estrangulador.” (p. 94). Era a selva dominadora onde “tudo perdia as proporções normais” (p. 62)
      Numa irreversível dinâmica de determinismo do meio sobre o indivíduo, os homens, naquele espaço sui generis, acabavam animalizando-se.

          b) A falta da fêmea e o abrasamento sexual

        Como costuma acontecer em obras de influência naturalista, é comum se ver em A Selva os homens serem governados pelo instinto, especialmente o sexual, que os empurra a atos extremados, premidos que eram pela ausência da fêmea. As mulheres eram escassas no seringal. As poucas que existiam, todas tinham dono, até mesmo as crianças pré-adolescentes, cujo compromisso marital era firmado pelo pai desde muito cedo, como uma forma de troca de favores entre este e o futuro marido. Ao nordestino não era facultado trazer mulher para o seringal, pois na lógica capitalista do coronel a mulher era um fator gerador de despesas na viagem do nordeste até ali. Por outro lado, tendo a mulher por perto, o homem produziria menos, ao passo que ficando a mulher no sertão o homem triplicaria seu esforço de trabalho com o sonho de voltar para a companhia de sua amada o mais breve possível. Tudo isso, evidentemente, era estratégia de espoliação, pois a estrutura montada nos seringais conspirava para que o sertanejo nunca mais voltasse para sua terra. É Firmino quem explica, em diálogo com Alberto: "Seu Juca é quem manda buscar os brabos ao Ceará e lhes paga as passagens e as comedorias até aqui. Se eles viessem com as mulheres e a filharada, ficavam muito caros. Depois, se um homem tivesse aqui a família, trabalhava menos para o patrão. Ia caçar, ia pescar, ia tratar do mandiocal e só tirava seringa para algum litro de cachaça ou metro de riscado de que precisasse. E seu Juca não quer isso. O que seu Juca quer é seringueiro sozinho, que trabalha muito com a idéia de tirar saldo para ir ver a mulher ou casar lá no Ceará". (p. 103)
          E continua: "É uma desgraça! Alguma mulher que há, é de seringueiro com saldo, que a mandou vir com licença de seu Juca. Mas são mulheres sérias e, se não fossem, o homem lhe metia logo uma bala no corpo e outra no atrevido. Aqui é assim. Se aparecesse uma mulher sozinha, todos nós nos matávamos uns aos outros por causa dela. Mas não aparece... Qual é a mulher sozinha que tem coragem de vir para estas brenhas?" (p. 103)
          Narra-se o caso de um seringueiro chamado João Fernandes, um velho que tinha saldo e por isso tinha mulher. Quando ele morreu, deixou a viúva com mais de 70 anos, e esta não quis juntar-se com outro homem, nem “fazer o seu favor” aos que foram lhe bater à porta. Por isso, um dia todos os seringueiros a conduziram à força para o mato, e lá a estupraram, deixando-a morta.
          Eram as constantes cenas de zoofilia, pedofilia, homossexualismo e crimes passionais. Um dia, por exemplo, Alberto fica chocado ao flagrar o Agostinho copulando com a égua que o feitor deixara amarrada próximo à cabana em que moravam. Como desaprovasse severamente a atitude do colega, em conversa com o mulato Firmino, recebeu deste uma justificativa para aquilo que já era considerado normal no seringal. O diálogo é esclarecedor:
          – Não há mulher... que vai um homem fazer aqui?
          – É horrível! É horrível!
          – Também seu Alberto irá, um dia, laçar vaca ou égua...
          – Eu? Não diga isso! Proíbo-lhe que me diga isso, ouviu?
          – Você verá, seu moço, você verá... Deixe chegar o dia... (p. 97)
    
          Na explicação de Firmino, o meio era capaz de moldar o indivíduo, traduzindo ao amigo, sem saber, um princípio naturalista. Sintomaticamente, alguns minutos depois, enquanto Alberto ainda se sentia enojado do que vira, Firmino já estava também copulando com a égua.
         Agostinho envolveu-se também em um crime que abalou todo o seringal. Andava ardendo de desejo pela filha de Lourenço, o único caboclo do seringal. A menina era ainda uma criança, mas, segundo Firmino, já havia “muitos focinhos atrás dos passos dela como tamanduá-bandeira cheirando os formigueiros”. (p. 119) Como o pai da menina lhe negasse a filha, o sertanejo matou-o a golpes de terçado, fugindo em seguida.
      Alberto também sofre com seus inquietantes estados de lubricidade, motivados pela imagem de Dona Yaiá, esposa do guarda-livros, senhor Guerreiro. Ficava a espreitá-la nos momentos em que ela tomava banho, e saía dali ardendo em volúpia, num fogo que nem o banho frio conseguia apagar. A única saída que encontrou para extravasar aquela febre libidinosa foi tentar seduzir nhá Vitória, uma velha sexagenária que contratara para lavar a sua roupa, quando esta estivesse a sós com ele na casa. Mas a velha, ao perceber as intenções do rapaz, que lhe acariciava a pele engelhada, xingou-o e saiu às pressas, deixando-o em estado de estupefação. Concluiria ali que o meio estava realmente exercendo influência sobre ele.

          c) A enchente

         Ao descrever uma das enchentes no Paraíso, Ferreira de Castro pesa a mão nas metáforas, personificações e hipérboles, com vistas a enfatizar, através dessas imagens, o aguaceiro em que a selva se transformava em períodos como aquele. Quando o rio começava a encher, "era um dilúvio anual que vinha do Peru, da Bolívia, dos contrafortes dos Andes, veios que borbulhavam, blocos de gelo que se derretiam, escoando-se da terra alta, regougando nas cachoeiras e destroçando, de passagem, tudo quanto se lhes opunha". (p. 121)
          As grandes águas são descritas como um ser faminto, em cuja gula insaciável toda a natureza vegetal e animal é vitimada. “O manto aluvial, descendente do bíblico, invadia lentamente, soturnamente, a selva arrepiada”. (Idem) Os comportados igapós, de águas mortas no verão, incham-se, expandem-se e perdem os seus contornos, como num passe de mágica. A água invasora, inimiga cruel, expulsava os animais de suas moradas, e deixava os homens ilhados, de mãos atadas.
     Vivia-se em cima de água, que se via pelas frinchas do soalho, fincado sobre os espeques; e os caboclos que no verão amarravam a canoa a quinhentos metros de distância, lá no fundo da ribanceira, tinham-na agora junto à porta, e chovia, chovia. (p. 122)
     A enchente durava meses, e o fazendeiro precavido construía logo as marombas para proteger seus animais da sanha destruidora das águas, mas até as marombas, apesar de sua estratégica elevação, eram invadidas pelas águas inclementes: “bois e vacas, primeiro com as patas, com o ventre depois, mergulhados no inimigo, acabavam por tombar de inanição e ser lançados ao rio, para gáudio de piranhas e candirus”. (p. 122)
     As plantações realizadas pelos seringueiros ao longo do verão também eram destroçadas, e a colheita que não fosse feita a tempo, era destruída por completo: "Trepava a água às viçosas plantações, depenando toda a terra que braços fortes tinham roçado para a obra da criação. E os mais desprevenidos viam até ir na corrente, desfeito com vigor daninho, o lar que haviam fundado ao alcance da intrusa. Era a desolação e era a pobreza que a grande toalha impura trazia nas suas dobras". (p. 122)
     Dessa forma, o nordestino, oriundo de uma terra assolada perenemente pela seca, tinha que desenvolver um árduo aprendizado de viver sob o regime das águas, transitando entre os dois períodos variáveis do rio, a enchente e a vazante, que constituem o regime climático da região, fazendo-se sentir não só na zona rural, mas também nas cidades, onde os indivíduos sofrem, direta ou indiretamente, seus efeitos.
     Enchente e vazante são como uma moeda de dupla face: uma muito triste, às vezes calamitosa, a enchente – casa e pasto alagados, pescaria escassa, muita chuva, fome, miséria, perigos de morte, doenças, ataques de animais do rio, principalmente cobras. Esta estação está relacionada ao inverno, cuja metáfora da toalha impura e suas dobras cheias de desolação nos parece apropriada; a outra face, um pouco menos triste, a vazante, a seca, o verão – época do plantio e da colheita, das pescarias, das festas e dos encontros sociais, momentos de sublimação para aquelas vidas atribuladas.


          d) Extrativismo predatório e decadência

          Uma das imagens mais recorrentes no romance é a da decadência. A ação se passa num momento em que o sistema extrativista do látex estava caminhando a passos largos para o presumível fim. Mas os “pobretões sem eira nem beira” que se transformaram, “de um instante para outro, em donos de casas aviadoras tão poderosas que sustentavam no dédalo fluvial grande frota de gaiolas” (p. 32), faziam de tudo para ignorar a situação, embalados pela ilusão de eternidade da vitalidade das seringueiras, tão dadivosas mas exploradas predatoriamente. A decadência estava à vista, mas ninguém dava por ela: "Ninguém se dava por conformado dentro dos estreitos aros da nova verdade. A recordação do esplendor ainda tão próximos incitava os ambiciosos, tornando-os mais febris, mais dinâmicos e esvaziava-os dos últimos escrúpulos. Deliravam na luta, para recolher o caudal antes que ele se esvaziasse totalmente sob a catástrofe que se avizinhava. Era a confusão, era a loucura, um esbracejar de náufragos que não se afaziam à idéia de viver sem a antiga opulência. De nítido ficava apenas o drama obscuro do seringueiro, na selva cúmplice e silente". (. 33)
         Mesmo na decadência, ainda era a borracha que movia o sem-número de embarcações que singravam os grandes rios da Amazônia todos os dias. Os coronéis, ávidos pela manutenção do patamar de produção, pressionavam cada vez mais os seringueiros, que, à guisa de Sísifo, carregavam aquele mundo nas costas, empurrando o sonho de regresso ao sertão cada vez mais para longe.
          Através do discurso indireto cedido a Alberto, o narrador amplia a visão do leitor sobre a cadeia de exploração, mostrando que ela não se fechava com o coronel: "Era uma exploração em cadeia. A casa exploradora explorava Juca, ele, por sua vez, explorava os seringueiros, que eram, no fim, os únicos explorados. Mas Juca podia, ao menos, protestar, o enquanto aos seringueiros nem sequer isso era permitido". (p. 201)
          ''Todavia, sabe-se que a cadeia tinha um elo a mais, além das casas aviadoras, que era o capital inglês, que, segundo ALEIXO (1982), auferia os maiores lucros. Evidentemente, esse sistema – por ser predatório – só poderia estar fadado ao fracasso. Não havendo nenhuma preocupação quanto à preservação das árvores, elas iam aos poucos se exaurindo e definhando. Sintomaticamente, próximo ao final da narrativa o leitor toma conhecimento da passagem do Justo Chermont pelo Paraíso lotado de japoneses rio Madeira cima, comissionados para “plantar mandioca, cana e milho nos seringais, aí pra cima, nos seringais que dão poucos galões”. (p. 188)
          Noticiada com abundantes louvores pela imprensa de Manaus, a chegada dos japoneses era encarada como a salvação do Amazonas, pelo gênio agrícola daquela gente. Era o limite que se punha ao sonho de grandeza, com a desvalorização da borracha amazônica, incapaz de concorrer em pé de igualdade com a indústria norte-americana e o cultivo científico do látex. “Era mal sem cura e a ilusão, de tanto esticada, acabou por partir-se”. O Amazonas virara um pesado cadáver e era preciso ressuscitá-lo. Mas quem seria capaz de operar o milagre da ressurreição? O nordestino não servia: chegava sempre com alvoroço, no azáfama de adquirir fortuna e voltar para o Ceará. Se ficava, vencido pela desilusão, entregava-se à indolência, ao desânimo e ao pessimismo daqueles que vêem seus sonhos irremediavelmente arruinados; o indígena também não servia. Era “indiferente, na sua humildade, por todos os bens terrestres. Nem mesmo a extração da borracha, que fora ouro, o atraíra jamais”. (p.189) Foi então que surgiu a idéia de escalar os japoneses para ressuscitar o cadáver do Amazonas: "No sul, sobretudo em São Paulo, os japoneses haviam contribuído para um milagroso desenvolvimento, laborando a terra roxa e aumentando-lhe a riqueza quase virgem. Dir-se-ia que nenhum outro povo tinha, como aquele, a perseverança criadora e confiante no produto do seu esforço, fosse ele qual fosse. Contagiado pelo exemplo dos paulistanos, o governo do Amazonas resolvera-se, enfim, a oferecer o cadáver do gigante ao paciente braço nipônico.” (p. 189)
          Diante da passagem dos japoneses rio acima e dos dados esclarecedores do narrador em relação àquele quadro, o leitor recebe um questionamento significativo de Alberto: não estaria se repetindo ali mais um sonho que redundaria em desilusão? “Esses e outros homens, mesmo que fossem heróicos como tantos dos que os precederam”, conseguiriam vencer a luta inglória conta a floresta titânica?

          e) A visão sobre o índio

      É através da fala do seringueiro nordestino que tomamos conhecimento dos indígenas. Na conversa que estabelece com Alberto, o cearense Firmino diz o que pensa a respeito dos parintintins que, segundo ele, vinham freqüentemente ao seringal à procura de cabeças humanas para utilizarem nos rituais que realizavam em sua taba. Quando não encontravam, quebravam a roça, destruíam a plantação, devastavam tudo que vissem à sua frente.
          Firmino explica ainda que "quando a água baixa, no verão, só ficam na taba as mulheres, as crianças, os velhos e o tuxaua. Os outros saem para a caça. Fazem tapiris para se abrigarem até chegar aos povoados. Às vezes o filho do tuxaua vem para aprender a ser valente e herdar um capacete de penas". (p. 87)
          Ao ser indagado a respeito do motivo dessa ferocidade dos índios em relação aos “civilizados”, o cearense dá a seguinte explicação: “porque os homens civilizados tomaram conta da terra deles. Isto aqui, antes de ser dos bolivianos que deixaram o seringal a seu Juca, era dos parintintins.” (p.88)
        Dessa forma, a ferocidade indígena, que costuma ser pregada na literatura colonial como algo gratuito, sem razão justificável, encontra em Ferreira de Castro a explicação de sua origem: vingança contra os que violaram as terras indígenas, com violência não menos intensa. Neste ponto, dá-se ao leitor a impressão de que o seringueiro tem uma leitura correta a respeito da relação indígena x “civilizado”. Ou seja, ele entende o déficit do colonizador em relação àquela gente que foi escorraçada de sua terra, com violência, e que agora agia por vingança. Mas a impressão de que o “branco” compreende a realidade indígena logo se desfaz, quando Firmino afirma sua idéia fixa em relação aos índios: “Aquilo é bicho que só deixará de ser ruim quando desaparecer. Eu, se encontro algum, mato-o logo!” (88)
         Assim é que comumente havia enfrentamentos entre índios e seringueiros, como o incidente em que os parintintins mataram o seringueiro Procópio e os outros seringueiros se vingaram, matando o cacique. E, diuturnamente, os seringueiros andavam às voltas com a preocupação de encontrar alguma forma de exterminar aqueles “bichos”.

          f) Cachaça e festas como anestésicos

     Como anestésicos para a vida de privações de toda sorte que levavam, os seringueiros utilizavam como válvulas de escape a bebida e as festas domingueiras. A cachaça era um dos produtos mais requisitados no barracão do coronel. Até mais que a própria comida, até porque os artigos alimentícios eram extremamente caros, sendo mais fácil adquirir um litro de cachaça do que um quilo de farinha ou de charque. “A embriaguez periódica”, conseqüentemente, “era a única evasão do espírito, o único facho na longa noite da masmorra verde”. (p. 112) Premidos pelos maus tratos, pela fome, pelo cansaço, pela falta de sexo, pela ausência total de liberdade, era nas festas e na cachaça que buscavam algum momento de sublimação: "A chicha e a cachaça começavam por estimular, tornando justificáveis, nos cérebros incandescidos, todas as aberrações; depois amolengavam-nos, apresentando-lhes como facilidade vindoura o impossível e como breves certezas as mais indizíveis esperanças". (p. 119)
     Saboreavam aquele veneno até a última gota, a noite inteira, nas festas domingueiras, abandonando o lugar apenas no amanhecer da segunda-feira, quando eram obrigados a retornar à crua realidade.
        Era nas festas que a lembrança da terra natal se fortalecia, pelos ritmos da música nordestina e seus instrumentos, pelas danças, pela brincadeira do boi-bumbá, pelos encontros semanais, que possibilitavam as reminiscências da terra distante, de onde a maioria deles tinham vindo.
        Era nas festas também que apareciam as poucas mulheres, visão rara nos seringais, o que fazia com que os homens ficassem embriagados de lubricidade. Na dança, davam um pouco do seu contato e do seu calor perturbante. “Dilatavam-se os olhos masculinos, os lábios entumeciam-se, a lascívia ia em onda alta, abrangendo todos os movimentos e emprestando a alguns dos rostos súbita expressão de loucura”. (p.119)
          A mistura explosiva de lubricidade com álcool empurrava aqueles homens para um abismo ainda maior, ampliando a sensação de inferno nos momentos posteriores à euforia.

5. As cinzas da vingança

          O romance termina com um incêndio avassalador, no qual apenas uma pessoa morre: o dono do seringal, o maquiavélico Juca Tristão. E esse incêndio provocado soa como uma concessão do autor a si mesmo, numa espécie de purgação dos males que sentiu na pele enquanto viveu nos seringais amazônicos.
        Simbolicamente, o fogo, com seu poder purificador e renovador, punha fim àquele mundo cruel e desumano. Repete, em outras circunstâncias, a cena final de O Ateneu, do impressionista Raul Pompéia, quando as chamas inclementes puseram fim a um mundo (o Império) para dar vazão ao nascimento de outro (a República). Assim como o Ateneu era uma metonímia do Império (uma miniatura), o Paraíso era também a metonímia do que foi o chamado ciclo da borracha.
       Depois de dar a conhecer ao leitor os flagrantes daquele mundo iníquo, dos quais foi testemunha ocular, o escritor português promove a sua vingança, fazendo com que um clarão fenomenal invadisse a noite, desestabilizando os elementos daquele mundo à parte: “já não se via o bananal, apagavam-se, ao longe, os contornos da selva, o rio fundira-se na noite e os troncos cinzentos das três palmeiras começavam a vestir-se de luto”. (p. 220) Ao amanhecer, a luz de um novo dia haveria de mostrar um “montão de cinzas que o vento, em breve, dispersaria”. (p. 220)
     Essa vingança, o autor, no Pórtico, promete realizá-la em nome dos “anônimos desbravadores”, “gente sem crônica definitiva, que à extração da borracha entregava a sua fome, a sua liberdade e a sua existência”. Um livro como vingança. Promessa cumprida.

Referências

ALEIXO, Marcos Frederico Krüger. Introdução à poesia no Amazonas. Rio de Janeiro, UFRJ, 1982. (Dissertação de Mestrado)

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. [trad.
Vera da Costa e Silva et all] 2a edição. Rio de janeiro: José Olympio, 1990.

FERREIRA DE CASTRO, José Maria. A Selva. 37ª ed. Lisboa: Guimarães Editores LTDA, 1930.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 31ª ed. São Paulo: Cultrix, 2001.

PEREIRA, Lúcia Miguel. História da Literatura Brasileira - Prosa de Ficção. 3. ª ed. Rio: MEC/INL, 1973.

PROENÇA FILHO, Domício. Estilos de Época na Literatura. 10a edição. São Paulo: Ática, 1988.

SARAIVA, Antônio José & LOPES, Oscar. História da Literatura Portuguesa, 9ª ed. Porto: Editora Coimbra, 1976.

 
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Carlos Guedelha
Enviado por Carlos Guedelha em 01/01/2013
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