Um grão de feijão e sua história
Por engano foi cair ali. Salvo da panela prestes a levantar fervura. Xingou seus vizinhos, os grãos brocados, de espécie degenerada, rebotalho de safra, até que se calou de repente. Afinal, devia-lhes a vida. Por um triz não estava no torvelinho da água quente, confundido entre mil grãos, passando de raspão pelos tomates inteiros que eram bóias escorregadias naquele marzinho em revolta.
A terra, porém, que delícia, estava recém-chovida. Posso mesmo ver umas sobrinhas de chuva enganchadas nas folhas da chicória, reparou de coração contente. Como está brilhante este capim, comentou sozinho, desde que os grãos estragados estavam mortos. Para eles, tinha certeza, não fazia diferença estarem ali no chão amigo do quintal, ancorados na terra molhada e fofa. O suplício da água borbulhando, cantando de calor, não os atingiria.
Vou crescer sem a companhia de ninguém, queixava-se, e era o seu modo de partilhar com os companheiros mortos. Em seguida num esforço em que se empenhava todo pôs-se a olhar pelo quintal. Estava quase à porta da cozinha, o que o deixou assustadiço e medroso. Não, não havia perigo, para isso não fosse tão pequeno. Se ao menos tivesse a alegria sarapintada dos mulungus. Mas sua cor não só era discreta como confundível. A aparência séria, seu broquel.
Então pôde ver de ânimo repousado, a goiabeira coroada de florinhas e os troncos de outras árvores muito altas de que não via a copa. Por que cresceriam tanto?
Confusamente percebia que tais caules monstruosos participavam da grandeza dos trovões. Vá ver que a fronde dessas árvores mergulha no céu. Por isso não as vejo. Divertia-se descobrindo o quintal. Tanto tempo confinara-se a sacas escuras que perdera a naturalidade de ver-se ao ar livre. Palavra que até me ia esquecendo do dia. Tão morninho e limpo. Enquanto se deleitava ao sol, recuperando um passado interrompido – a colheita privara-o de luz, céu, chuva e chão – calmamente se dilatava, tufando ao bem-estar de quem se reencontra após descaminhos. Na terra sim, estava a vida.
Agora, reintegrava-se. Restabelecia o elo temporariamente partido, devolvendo à terra o embrião da estirpe. Cismava. A sua vida, se preservada, era toda uma descendência pela frente. Zelava por esta como se fosse dado alcançá-la em realidade, acometido de amor pelo futuro. Embevecido quedava-se a olhar, a olhar. Enchia-se de ternura pelas flores da goiabeira. Antes que as goiabas apontassem já seria pezinho crescido, armazenando outros grãos.
Aos poucos vai botando a pequenina raiz de fora, a raiz que ganhando força arrasta-o rumo à luz para que surja dividido, as bandas a despirem roupa marrom. Nem bem se afundou no chão, com o próprio peso cavara seu leito na terra maleável, e já flutua à flor da terra. Estou só e a vida vai ser difícil. Nenhum feijão grandinho e experiente para me aconselhar. “Assim é melhor. Ora, não se faça de tolo. Penda para a direita. Preste atenção ao sol. Cuidado com as formigas”. Mas como já sabia o que lhe diriam? Havia sobretudo o gostinho bom de enfrentar o mundo sem um exemplo sequer a atravancar-lhe a expansão. Crescer como quem respira. Retesar as folhas com a vinda do sol, relaxá-las à noite. Docemente como a natureza lhe ditava. Bem-aventurada ignorância do porquê. A tradição familiar, cumpriria sem cultuá-la, pois, não se enganava, era o culto consciente que oprimia.
Não se via, mas sentia-se crescer.
Os botões de folhas desembrulhavam-se gêmeos pelo caule fino e sinuoso que girava mansamente desenhando círculos no ar. Os gestos redondos desfaziam-se no espaço vazio. A translação da haste tentava embalde alterar a amplidão indiferente. Quisera nela gravar-se mas reconhecia-a indomável, de uma fluidez que não se apreendia. Chegava à conclusão de que tinha o nada a rondá-lo – esse ar onde tudo deslizava e que escapava dos corpos não se deixando nunca possuir.
No momento discutia o problema do apoio. Em quem se agarrar? Seria forçado a deitar rama quando não mais se sustivesse de pé. Cascavilhava a vizinhança atrás de um encosto e botava olho grande na “jibóia” que se enroscava em uma mangueira.
Oh, bem que sabia abraçar e no entanto sua laçada morria no espaço. Um dia caminho até a cerca, abraço-a, e dou início a escalada. Com o tempo vou me espichando, quem sabe não tomarei conta da cerca toda? Está nuinha e nova à minha espera. Me chama com seu cheiro bom de resina. Na cerca, relutava, ficarei mais exposto. Se não me quiserem lá, arrancam-me como qualquer mato reles. Felizmente a essa altura já terei a dignidade da vida madura e firme para me opor, impondo minha presença. Nada do franzino projetinho de vida de que não passo por enquanto (nutria a autopiedade, humilhado em meio ao quintal esplendente de viço, quintal cujas árvores frondosas afrontavam com seus troncos roliços, sua sombra compacta, caindo em manto sem rasgões). Se o arrancassem apesar de tudo? “Ainda mais essa! Com tantos quilos de feijão debulhado e enlatado na despensa. Que tolice a desse grão! Querer fazer roça no quintal”.
E se o condenassem a adubo verde?
Às vezes analisava o poder que tinha de prever coisas e fatos. Era como se sua vida fosse repetição e nunca morresse mas se encarnasse em tempos sucessivos, carregando consigo a experiência da espécie. Dentro de si, sentia, havia algo que varava o tempo atravessando intacto as contingências da morte – o que lhe segredava o jeito de ser do mundo, suas emboscadas e gozos.
Assim não se surpreendeu no momento em que um jato d’água fervendo (a empregada tinha o mau hábito de atirar as coisas pela janela) veio colhê-lo enquanto com muito carinho tecia seu futuro.