Textos

A Mura

Aruê, cará mirió;
Cadê metotire?
‘stá no mato,
debaixo do pau,
auê...
          A cantiga sincrética é melancólica e ecoa na noite de um silêncio táctil. Em frente ao barranco o manto negro do lago reflete, em crespos que a brisa levanta a espaços, a luz fugaz da lua mortiça. Noite após noite o espera. Há-de surgir da escuridão, singrando as águas na canoa lépida, impulsionada pelos braços poderosos. Há-de receber os peixes e sem palavras, quando muito um resmungo, atiçar as brasas no fogão de barro, enquanto ele se estenderá na rede e ficará olhando o teto de palha, fumando o cigarro de tabaco de molho. A cantiga é uma invocação. O vestido molhado pelo sereno, os cabelos escorridos no rosto, mas os olhos, fixos na escuridão, são poços secos, ardentes. Tantos anos de silencioso convívio, o relacionamento na velha barraca protegida pelos cajueiros, sem necessidade de palavras – uma e outra, em ocasiões raras. Bastava o olhar, o gesto, a vontade pressentida. O sofrer resignado. Razão nenhuma para aquela ofensa – índia porca. Motivo algum para a bofetada. Tudo era como sempre foi, desde o momento em que o último filho tomou o rumo do mundo.
     - Cadê metotire?
     Está no mato, de onde vem esse ar opressivo, esse cheiro à carniça, a faca enferrujando no chão. Ao amanhecer a cantiga é uma prece e o sangue forma crostas negras nas mãos estropiadas. Os olhos no lago, agora dourado em fundo negro.
Erasmo Linhares
Enviado por Professor Guedelha em 06/11/2019


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