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O Touro Guarujá
 
a coisa foi feita de repente. era um trabalho praticado todos os dias e ficara fácil. quando o vaqueiro largou o último grito, aquele montão de gado já todo repisando o estrume do curral à procura de agasalhar-se o melhor que pudesse. ficariam ruminando e dormindo a noite toda. fora da cerca, apenas, como sempre, o touro guarujá no delicioso dever de pai do campo. o seu dever. dever de passar as noites rondando o curral, para impedir que alguma onça famélica viesse sangrar um dos seus. era uma paixão desinteressada. puro amor consanguíneo. todos, com exceção da vaca velha, eram produtos seus e seus com os seus produtos. quando ali chegou, era apenas um componente de um casal isolado, e o campo foi crescendo à medida que ele enchia. foi enchendo e elas esvaziando, sem nunca difamar o seu temperamento másculo. isto, desde o tempo em que com o valor atual de um quilo de sua carne, comprava-se ele inteiro. não obstante ter travado batalha incessante para repelir os inimigos, o seu pelo lustroso mostrava, tão somente, a cicatriz de um rasgão recebido ao enfrentar, valentemente, uma pintada quase do seu comprimento. no entanto, o seu estratagema foi superior ao dela. ficou espichada no terreno e o seu couro é o tapete da sala de visitas do criador. exercitou toda a sua capacidade de brigar, apenas com o sortilégio de um acidente. naquela época, ficou prostrado mais de uma quinzena e, não fosse um tratamento especial, que roubou noites e dias de rezas ao curandeiro, a morte o teria arrancado do capim. as vacas urraram, danadamente, à sua espera. aquele encurralamento estava impedindo-as de uma vida inteirada. algumas, cujos corações batiam mais forte pelos seus interesses de amantes, chegaram a jejuar completamente. talvez morressem, morrendo ele.

em passos graves e a cabeça erguida, com a pose de proa de encouraçado, dava a segunda volta por fora do curral, quando a corda do vaqueiro, traiçoeiramente, enlaçou os seus chifres. chegou a desacreditar no que via, a ponto de seu rabo deixar de chicotear os insetos. há mais de seis anos não recebia aquele insulto, que era um achincalhe à sua veteranice de impecável comportamento e aos seus merecimentos, por tempo de serviço. aquele enigma não poderia perdurar. teriam que lhe dar satisfações sobre aquela aleivosia de emboscada. volveu a cabeça para fitar a cara do seu aprisionador. - por que este miserável veio cortar a minha respeitabilidade, com um talho de corda? - chicó, sem se exprimir, sentiu-se encabulado. trabalhava na fazenda há cinco anos, aproximadamente, e nunca o havia melindrado. tinha-o como o supremo animal daquela área. mas, a ordem veio do alto. era uma ação própria, no entanto ilegítima, porque estava fora de sua vontade. por ele, levá-lo-ia por caminho que findasse no céu. guarujá não

entendeu, ou não aceitou, aquela muda explicação e, numa intolerância de animal selvagem, não quis saber se ele tivesse rido ou chorado, depois de praticar aquela dureza. riscou o chão com os cascos, botou fogo nos olhos e avançou. o mulato, que já previra a sua ira, deu dois saltos para o poente e numa ação rápida e premeditada, deu uma volta com a corda pelo tronco da castanheira, o que obrigou o touro, no esticado, enfiar a cara na grama e, numa doida cambalhota, esparramar-se na queda, enquanto lhe dava tempo para amarrar a ponta num mourão da cerca.

- epa touro bom! mas, o chicó é melhor. - gritou numa explosão de vitória.

levantou-se forçando a canseira, sacudiu o couro com os músculos e ficou caminhando em ritmo esfalfado, por onde o tamanho da corda consentia. chicó, depois de descartar-se daquele risco agudo, retirou-se, assoviando placidamente, como se estivesse a esquecer a sua missão, antes de registrar tudo que nela aconteceu.

- paciência, paciência. a porta do inferno fica no limite do paraíso, e é tão grande que por ela passam até os elefantes, e, muitas vezes, mesmo no céu, por detrás das cabeleiras-ouro dos anjos estão os cavanhaques-aço dos demônios. aquilo deveria ser o resultado de uma grossa intriga ou o castigo por se ter recusado a cobrir a barbosa: vaca suja, capenga e zarolha, que nunca lhe despertou o fogo dos seus ossos. mas, fosse o que fosse, era uma deslavada injustiça do coronel. era um touro excelente, digno, perfeito e inteiramente dado ao gado. ajudara-o a subir, criar a sua filharada. alguns deles já haviam botado anel de doutor nos dedos, à custa de sua viripotência. ele, sozinho, entupira a fazenda de cornos. quando para ali foi levado, eram apenas quatro chifres, incluindo os seus. agora, medravam em centenas de cabeças e fixados, definitivamente, no valor de sua obra, que ficará perpetuamente criando

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saltou do tapume de quatro tabuas do seu pensamento e, urrando, sacudiu os olhos em direção à moradia do seu amo e, apesar da distância, viu quando chegou à sacada para falar ao chicó, presumivelmente sobre a sua personalidade. pelos seus gestos arrogantes, entendeu que continuaria teimando em deixá-lo amarrado, embora os seus urros merecessem a compaixão do mais gelado carrasco. fingia não ouvir. era um malvado. não se compadeceria de nenhuma voz que o alcançasse, por mais terrível e trágica que

fosse. desconsolado, resolveu afogar o seu urro no poço de seu desespero, fazendo subir mais ainda o nível daquele imundo lamaçal. fosse um crítico sagaz de si mesmo, estaria sentindo o peso da coroa de sua descompostura. soubesse que receberia, em paga dos seus bons serviços, aquela rude ingratidão, não teria marchado a vida como marchou, tão sacrificadamente. teria, muitas vezes, aberto a cancela de sua desídia, para dar passagem franca à ferocidade das onças. mas, julgava que a honestidade fosse o mais legítimo direito da vida. somente agora, cria que tudo não passou de uma capciosa promessa de esperança.

a noite toda não coube o seu desgosto. não dormiu nenhum pedacinho dela. estava bem clara, mas toda cheia das sujeiras dos homens. os seus desagradecimentos esmagaram com tanta impetuosidade a sua alma, que ficou pingando um ódio preto que se derramava, todo, nos seus chifres. queria vê-los, ali, espetados todos de uma vez, e, em represália, com eles padecendo, passear, gostosamente, pelo campo. nos momentos de maior emoção, muitas vezes sentiu-se ameaçado de enfarte. encostava-se à castanheira, arquejando e com os olhos olhando sempre para cima. sempre para cima, como se quisesse subir.

já no fim da madrugada, veio, com firmeza, a certeza. avistou a silhueta vigorosa de um garrotão meio-sangue, cruzando o verde do descampado. uma dor fria congelou o seu coração. havia chegado a razão de tudo aquilo: - era a sua aposentadoria compulsória e extemporânea, - quando ainda tinha brasa nos seus nervos. Era uma estupidez prematura. naquele mesmo dia, havia dado provas indiscutíveis de que sua arma não estava caduca. aquilo teria sido uma decisão míope, surda e estúpida. seus joelhos vergaram ao peso do triunfo daquela inverdade escorrendo por todo o seu corpo. teve que engolir, sem ruminar, aquele bolo de pasto infame e desleal. mas, não era tudo. o pior veio com o sol:

passou de uma à outra, sem lhe darem tempo para um ressecamento espiritual, e esta veio mais fininha e cruel. ali mesmo, à sombra da grande copa, viu-se, covardemente, cercado por todos os varões da fazenda. eram seis ao todo e todos aparelhados até aos beiços e avidamente decididos. antes que ele tomasse uma posição de defesa, a um simples sinal convencionado, deram início à bandalheira. chicó, com a sua incomparável habilidade de falsear, passou-lhe a macaca pelo costado, rente aos quartos, e, apertando o laço, roubou-lhe todas as forças das pernas. quando, com os olhos esbugalhados, caiu, dois sentaram na sua cabeça e mais dois no seu vazio. naquela ocasião um juiz, por mais venal que fosse, teria apitado impedimento. vendo-o manietado, o coronel arregaçou as mangas e, sacando de sua
peixeira afiadíssima, reduziu a três letras o seu substantivo comum. o próprio ficou o mesmo: boi guarujá. o touro, desapareceu. logo em seguida, atiraram um punhado de cinzas sobre o ferimento, sepultando o muito que ainda sobrava de sua virilidade. o coronel riu-se, deleitando-se em apagar no touro um ardor que também tivera.

não estava certo aquele despique ao seu tempo. aposentadoria: ainda, ainda. mas não com tanta violência e por um processo que não se aplica à nossa época. soubesse assim, teria procurado o movimento mais calmo da vida. não o teria ajudado tanto nos momentos de intervalo. aquela castanheira, que fincara suas raízes ali, sem jamais ter caminhado um passo, nunca lhe cortaram os brotos.

com lágrimas no pelo da cara, trocava coisas na sua ideia, enquanto o arrastavam, brutalmente, para dentro da indigência de um cercado, onde o abandonaram à sua sorte, sem nenhuma providência rezatória ou profilática, como se fora um criminoso da pior qualidade. naquele dia, entre os pratos do almoço, estava o guisado de testículos de touro com batata doce. era pouco. não encheu ninguém. mas todos provaram. estava bom.

depois de muitos dias sombrios, de bicheira e febre, o invólucro, picado de moscas, caiu podre. mas conseguiu, mesmo dentro da forja da adversidade, que o acudisse o espírito da vida.

quando voltou a comer no campo, haviam coado tudo o que ele tinha de bom. voltara sem aquele ardor antigo e pastava sob os olhares desprezativos das fêmeas. foi, vergonhosamente, afinando a voz e engordando mais, acentuadamente, nas traseiras, tomando a forma de vaca. vaca desvalorizada. vaca-sem-leite. Não demorou que a banha o jogasse no acabado da morte. passou aos pedaços na balança do açougue, enquanto o pouco que restava da sua dignidade diluía-se no quadrado da ignorância gramatical da lousa do açougueiro:
carne de vaca fresca
com osso 350
sem osso 510
gorda - gorda - gorda
 
(Benjamin Sanches - O outro e outros contos)
Benjamin Sanches
Enviado por Professor Guedelha em 12/11/2019


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