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Mal traçadas linhas para Deusilene
 
          Te escrevo, Deusilene, da casa do Doutor Boaventura, um moço bom e puro, que mostra ainda ter coração o peito. Se não fosse ele, ah, minha velha, nem sei o que seria de mim. Não tava te traçando agora estas linhas! Às vez a gente, nos momento de desespero, diz que a humanidade é ruim, os homem não presta, são fera que vivem querendo devorar o outro. Mas, também, não é assim não. Olha agora o Doutor Boaventura! Eu nem conhecia ele nem ele me conhecia, mas porém me viu carecendo de ajuda e me ajudou. Não é bonito isso, Deusilene?
          Vou te contar como se deu o mau causo. (Mas, isso é muito bom pra minha cara! Ainda me alembra as palavras do compadre Leogipo: “O que tem de tu ir te meter nessa tal de Zona Franca, compadre? Largar a tua roça, já bem crescidinha, pra ir cheirar o cu desses ricaços só por via de um emprego? O que tu ganha aqui será que não dá pro teu sustento e dos teus barrigudos?!” Sim, é certo, minha velha, que o que a gente ganha aí com a nossa agricultura dá pra gente ir atamancando. Mas porém nós ouve dizer que aqui na Zona Franca tudo é bom, tudo é barato, que a vida é mais fácil e a gente se larga pra cá na ilusão de amelhorar de situação. Quando acaba, não é nada disso. E é aí que cabe bem os dizeres do compadre Leogipo. Eu não tinha nada de pagar passagem cara , sofrer vexames porque não sei falar direito nem ler que preste, pra me meter na infuca que me meti!)
          Foi no terceiro dia que eu cheguei em Manaus. Atarantado no meio do furdunço que existe nas rua da Zona Franca, tive sorte de conhecer o Pimentel, um sujeito estúrdio, bem falante, que parece que simpatizou comigo e me levou por aí tudo onde eu não conhecia. Na primeira noite, fomos bater num tal de Saramandaia, um casarão enorme, onde as mulheres-damas fazem a vida. Nunca tinha visto uma coisas dessas, Deusilene. É mulher de todo tipo, branca, morena, alta, jitinha, bonita, feia e os cambaus. O que mais vi foi menininha nova, que não chega aos treze anos. Perguntei ao Pimentel se a polícia consentia aquelas menina irem ali. Que polícia, meu chapa? Aqui a putaria é livre! Nós não estamos na Zona Franca? Então, o que você quer? Me arrespondeu ele. Isto é o resultado desse floreado todo que fazem da Zona Franca de Manaus, continuou o Pimentel. Caboclos ingênuos, de boa fé, como você, largam o pedaço de terra com as suas plantações, os seus roçados, e vêm se meter aqui, pensando que entram num novo Paraíso. Uns vêm só, outros trazem a família toda. Os filhos, inexperientes, sem instrução nenhuma, quando veem que a coisa não é como lhe disseram, para não darem o braço a torcer voltando para o mato, saem à procura de emprego. Não conseguindo, que não é nada fácil, os rapazes caem na marginalidade, assaltando, matando, e as moças atiram-se na prostituição – para sobreviverem. Sabe de uma coisa, meu amigo: a prostituição de menininhas aqui é tão grande e aberta, que pentelho jamais conhece cabaço, porque quando um chega o outro já foi...
          Mas meu caso não era diversão, era trabalho. Eu vim daí, Deusilene, pra arranjar um dinheirinho melhor, pois a Zona Franca, não diziam que era uma mina? Falei pro Pimentel, então, que carecia que ele me arranjasse um emprego bom. Ele me disse que sem eu saber ler e escrever direito, era meio difícil. Mas, assim mesmo, me levou num tal de Nagib e pediu que ele me desse um trabalho. O tipo, muito posudo e arrogante, como todo cara de posição, tinha um comércio de fazenda. Me aceitou. Meu serviço era varrer a loja, arrumar as caixa de mercadoria, colocar o lixo na porta da rua, servir café e tudo o mais que desse na telha dos empregados me pedir pra fazer. E eu obedecia as ordem direitinho. Tava quase dois meses trabalhando e não sabia quanto ganhava. Um dia cheguei com seu Nagib e disse que tava carecendo de dinheiro. Queria fazer umas comprinhas pra mandar pra minha mulher e meus filho. Com indiferença, seo Nagib disse que eu tava na fase de experiência e, por isso, só ia me dar Cr$ 10.000.00. Ah, minha velha, quando ele disse isso, tu nem pode maginar o que senti! O sangue subiu todo pra cabeça, minha vista escureceu e eu, então, mandei o safado meter aquele dinheiro no cu da mãe dele, que eu não carecia de esmola. O turco, irado, meteu a mão numa gaveta, tirou um revólver que não tinha mais tamanho e, com a voz engrolada, mandou que eu me arretirasse da sua frente imediatamente, senão ele me quebrava na bala. Eu não pus dúvida. Empurrei a porta e saí na carreira rumo da rua.
          Cansado, faminto, no outro dia me larguei à procura do Pimentel. Sem conhecer mais ninguém a não ser Pimentel, tu pode maginar as dificuldades que enfrentei nesses dia em Manaus. Verdade que nunca senti tanta necessidade de falar com esse amigo, como naquele momento! Andei de bar em bar, pelos botecos, pelas praças onde ele costumava ficar sentado, e nada. Nessa caminhada, passei pelo Teatro Amazonas, pelo Palácio da Justiça, pelos outros prédio discunforme de grande que tem aqui e ficava de beiço caído, vendo como é bonito aquilo tudo. Nas ruas do comércio, eu parava pra ver as mercadoria que os donos colocam numa janela com um vidro grande na frente e que eles chamam de vitrina. E quanto artigo bom e fino tem ali, só tu vendo! Mas tudo caro, Deusilene, tudo pela hora da morte!
Não encontrei mais o Pimentel. Atrás dele, entrei pela noite cansado e varado de fome. Desesperado, tomei o rumo do meu quarto. Andava, andava, e pra descansar sentava na beira das calçada. A fome cada vez mais me apertava e eu só pedia a Deus que me desse força, pelo menos, pra chegar té em casa. Não sei se porque pensei tanto no Santíssimo, de repente passou um caminhão carregado de frutas e, num solavanco que deu, deixou cair na rua um bocado delas. Foi minha salvação. Ajuntei depressa umas e me pus a comer como um perdido.
          Revigorado, tornei a caminhar. Já tava a poucos passos do meu quarto, quando parou perto de mim um carro da polícia. Está preso, malandro. Não te move, senão vais morrer! – gritaram os soldado pra mim. Eu arrespondi que não era nenhum malandro nem bandido, eu vinha do interior e tava procurando emprego na Zona Franca. Mas eles não me deram importância e ordenaram que eu entrasse no carro.
          Na delegacia, o mandachuva de lá quando me viu foi dizendo: ah, custou mas te agarramos, hein assassino nojento! Estava bancando o sabidinho, pensando que ia escapulir? Pois sim, das mãos do delegado Piragibe nunca bandido nenhum fugiu. Tranca bem esse filho da puta aí – falou pro soldado - que depois tenho uma conversa com ele.
          Completamente zonzo, sem saber dizer uma palavra nem entender mais nada, me sentei num canto da prisão e comecei a lamentar a minha sorte. O que havera de me acontecer?, pensava eu. Como é que podiam prender uma pessoa inocente, que nada fez de mal, nada disse contra ninguém? Tava nisso, quando vi, em cima dum tamborete, um jornal trazendo o retrato duma mulher nova e muito bonita. Peguei o jornal e fui lendo: “Passaram dezoito dias e até o momento a polícia não descobriu se a médica está viva ou morta, apesar de todos os indícios e vestígios levarem a polícia a admitir que a jovem Ida foi realmente assassinada pelo seu amante Evaldo.”
          Então, tavam me tomando por Evaldo? Eu, um pobre coitado que só quero mesmo um emprego na Zona Franca? Me alembrei que Pimentel, uns dias antes, tinha me falado duma doutora médica que foi encontrada morta e que o assassino não tinha sido pegada. Não tinha sido pegado nem iam pegar, ajuntou Pimentel, pois a polícia daqui é despreparada, não tem condições de desvendar os grandes crimes que aqui se cometem. E, como esse, outros casos têm ficado sem solução. Me contou mais o Pimentel que, quando a imprensa começa a dar em cima, a atacar, as autoridades agarram um tal de “bode expiatório” e apresentam ele como sendo o autor do crime.
          Quando essas lembranças despertaram na minha cabeça, comecei a esfriar. Então, eu ia pagar pelo crime dos outros? Pensava nisso, quando o delegado apareceu e mandou que eu seguisse ele. Paramos numa sala no fundo da delegacia, onde dois homem forte, com os braços cruzados, aguardavam parece ordens.
        Adepois de mandar eu sentar num tamborete, em frente dele, o delegado me perguntou, sem eu esperar, à queima roupa, como eles dizem
aqui: por que tu mataste a médica, hein Bandido? Eu não matei ninguém não, doutor, arrespondi, e logo um tapa violento no meu rosto fez eu tombar do tamborete. Não minta, seo filho da puta! Confessa que mataste a doutora, vamos! Senão eu te afogo naquele camburão dágua! – gritou o delegado. Outra mãozada zoou no meu ouvido. Queria me equilibrar no banco, mas a chuva de tapas e pontapés não deixava. Janjão!, chamou de repente o polícia, ensina esse passarinho a abrir o bico! Rápido, Janjão me agarrou e, com o revólver na mão, mandou que eu arriasse as calça. Eu olhei muito irado pra ele e disse: meu amigo, olhe aqui, eu não sou o que vocês tão pensando. Nunca dei o cu não, sou macho inteirado. Cada a boca, seo puto, e faz o que eu mando, falou o meganha encostando o cano da arma no meu peito.
        Ah, Deusilene, eu não queria morrer, mas também me assujeitar àquela indignidade, eu achava duro! Somos caboco, minha velha, mas somos também humano! Comecei a rezar baixinho, pedindo a Deus que me salvasse daquela situação. Já tinha apanhado como um cão. Meus beiço e o olho esquerdo tavam horríveis de inchados. Com o revólver no meu peito, fiz que tava desafivelando o cinto, com isso procurando ganhar tempo do polícia. Ele percebeu a minha manobra e me deu um murro tão violento que me fez soltar um grito de desespero.
       Às vez eu quero desacreditar de Deus, mas foi Ele que, naquela hora, mandou aquele homem me salvar. O Doutor Boaventura, que se encontrava por acaso na delegacia, quando ouviu o meu grito, foi entrando e me viu caído no chão levando pontapés do soldado. O que estão fazendo com o homem?, perguntou exaltado. Eu sou advogado e não vou permitir que se espanque uma pessoa assim! Isso é uma barbaridade, vou denunciá-los! O delegado ficou com cara de palerma e não falou nada limitando-se a fazer sinal pro outro meganha se arritirar da sala.
       Adepois de falar em Direitos Humanos, arbitrariedade, processo e outras coisa que eu não entendi bem, o Doutor Boaventura mandou que eu vestisse minha camisa e acompanhasse ele. Na rua eu ia pensando como é que uma pessoa pode ser tão ruim, tão perversa com o seu próprio semelhante. O desgraçado daquele delegado não se alembrava, então, que ele tá na idade do infarte e do câncer, e contra essas doença, não tem forte nem poderoso?
E aqui, na casa do doutor, eu me acho, minha velha, há quase quinze dia. Como te disse, ele é uma criatura boa, humana, me deu um quartinho no fundo da casa dele e todo dia me oferece café e comida. Me disse que eu posso ficar aqui té quando eu quiser. Mas eu tou só esperando sarar, pra ir dando o fora. Já chega de ilusão, de sofrimento. Também não aguento mais as saudade.
         Dá essa cartinha pro compadeLeogildo ler. Ele vai caçoar de mim té não querer mais... e é bem feito!
          Beijos e abraços do teu Manduca.
 
(Arthur Engrácio, 20 Contos amazônicos)
Arthur Engrácio
Enviado por Professor Guedelha em 12/11/2019


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