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Tampinha

          Vá à merda, Tampinha - depois fechou os olhos e morreu. Em outra circunstância teria corrido ao quarto para chorar, abandonado sobre a cama. Desta vez ficou parado e viu quando o corpanzil do pai estremeceu de leve e a boca torceu-se para o lado. Ficou olhando um instante, depois estendeu a palma da mão em frente do nariz e constatou que não mais respirava. Não sentiu nenhuma emoção. Ao contrário, estava tranquilo, como nunca estivera em toda a sua vida consciente. O coração que sempre saltava incontrolavelmente na presença do pai, agora batia no compasso normal. Tocou com as pontas dos dedos o rosto largo e como tudo continuasse calmo, desferiu um golpe com toda a força de que era capaz. A cabeça virou para o lado oposto e ficou ali, com a papada do pescoço formando um arco retorcido. Imediatamente a endireitou e amparou com os travesseiros.
          Sabia-se pela mãe: no dia de seu nascimento o pai tomara um porre formidável para comemorar o homem que ele tinha certeza iria nascer e uma semana após, quando ofereceu o mijo, convidou todos os conhecidos e até desconhecidos,encheu a casa de bebidas e fartou-se de cerveja, berrou que aquele seria o maior homem do mundo, capaz até de mudar a trajetória da Terra, e desafiou todos os presentes a contestar o vaticínio e quando major Lucas, seu eterno parceiro de dominó, esboçou um sorriso zombeteiro, expulsou-o de casa aos gritos de traidor, traidor.
          Mimava-o. Raro era o dia em que não trazia um presente, um agrado qualquer, até quando completou doze anos e o pai começou a inquietar-se com seu tamanho - o menino não lhe ia senão a um palmo acima da cintura. Levou-o ao médico, despachou receitas e quando verificou que os resultados eram quase nulos, começou a comprar remédios por indicação de amigos, guiado pela propaganda do rádio, por conta própria, e o obrigava a beber colheradas de xaropes repugnantes, pílulas de todos os tamanhos, cores e formatos, até que sobreveio a intoxicação e foi obrigado a levá-lo ao hospital, onde lhe aplicaram tantas injeções, que por uma semana não pôde sentar-se.
          No dia em que chegou em casa esbaforido, carregando no ombro um enorme contrapeso de bate-estacas, a mãe espantou-se, e quando o viu armando o engenho na cozinha, desconfiou do que se tratava, mas recusou-se a acreditar de que seria capaz daquela loucura. Passara uma corda grossa num dos caibros do telhado e outra na argola do contrapeso. “Vou apenas esticá-lo um pouco - explicou - , quem sabe isso resolve”. Mas a mulher do espanto passou ao desespero e saiu correndo à rua, gritando que o marido ia matar o filho e de repente a casa encheu-se de vizinhos que o reprovaram ferozmente e ele temeroso de que da reprimenda os outros passassem ao ataque, desistiu do intento e foi pro bar, e quando voltou cambaleante, gritou no meio da sala de jantar: “Esta tampinha não é meu filho, um homem como eu não pode fazer um tamborete de merda como este”.
          Todas as noites, quando voltava a casa, sempre bêbado, repetia a mesma cena. Enxotava o menino de sua presença e quando a mãe tomava-lhe a defesa, ele, com os olhos fuzilando de ódio, vociferava - vagabunda. Mãe e filho refugiavam-se no quarto e choravam abraçados até que o sono os dominasse.
          No dia em que o empurrou contra a parede fraturando-lhe o braço esquerdo, major Lucas, que nunca esquecera a antiga ofensa, deu parte no Juizado de Menores, mas, quando a mãe soube que o juiz apenas passara-lhe um carão e fizera algumas ameaças sem consequências, resolveu atender o conselho de uma vizinha e falar com o governador, amigo dos pobres e defensor dos oprimidos. Foi numa segunda-feira e voltou do portão, onde o guarda barrou-lhe a passagem, explicando que aquele não era dia de se receber ninguém em palácio. Voltou na quinta e uma funcionária mandou que voltasse dali a vinte dias, pois o chefe-de-gabinete estava viajando e só ele marcava audiência. No fim do prazo tentou novamente e desta vez o chefe-de-gabinete explicou que o governador padecia no momento de uma furunculose que o impedia de cumprir o expediente como manda o protocolo. Voltasse dentro de uns dois ou três meses e seria recebida com toda fraternidade, minha querida companheira de campanha. Desistiu e um mês depois, quando o menino voltou da escola, encontrou-a morta, sentada na cadeira de balanço, o lenço na mão, ainda úmido de lágrimas. Parada cardíaca, disse o médico.
          Antes do enterro, o pai tomou um porre, vomitou no meio da sala, ao lado do caixão, espantou as senhoras com meia-dúzia de palavrões, major Lucas, furioso, agarrou-o pelo colarinho, mas o padre interveio - repeitem pelo menos a defunta, gritou chorosa dona Florinda –. Não olhou o cadáver da mulher espremido no pobre esquife roxo, nem foi ao cemitério, e, por causa de tudo isso, desde esse dia nenhum morador da rua sequer lhe deu bom-dia.
          Apesar de pagar-lhe o colégio e fornecer a mesada regularmente, jamais o encrava e quando precisava comunicar-lhe alguma coisa, fazia-o por intermédio da velha empregada. Só alguns anos depois, ao entrar em casa, encontrou-o casualmente na sala de estar, parou, olhou-o com rancor e disse: “Vá raspar esses pentelhos da cara, você já é um homem, embora ninguém diga”. E deu uma gargalhada sonora, balançando convulsivamente a enorme barriga.
          O rosto largo e vermelhaço agora estava ficando lívido. A pele começava a ficar lisa e os olhos empapados estavam sendo cobertos por uma névoa azulada.
          - Bandido - disse entredentes. Depois saiu nas pontas dos pés, para não alertar a velha que trabalhava na cozinha e ganhou a porta da rua. E nunca mais ninguém soube contar sobre seu destino.
 
(Erasmo Linhares, O tocador de charamela)
Erasmo Linhares
Enviado por Professor Guedelha em 12/11/2019


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